sábado, 1 de setembro de 2007

100º Post

Nada melhor para o 100º post do que um atropelamento. Atropelamento? Sim, atropelamento. Fui atropelado. O Suricat foi atropelado? Sim, por um taxi, atropelado, numa passadeira. Numa passadeira? Sim atropelado. Eu conto.

Era o dia (ou já noite, até) 29 de Setembro de 2007... e eu dirigia-me de minha casa a... minha casa. Ok, de casa dos meus Pais a aquela que deverá vir a ser a minha casa... a pé...

Estava na rua do Campo Alegre, alguns metros depois do Jardim Botânico, em frente ao primeiro portão das antigas instalações da Faculdade de Psicologia da UP, decido atravessar. Na passadeira.

Um taxi que vinha na faixa de bus, pára para me deixar passar. Eu ponho-me à frente do referido, com atenção ao carro que vinha da direita. Então decido avançar mais. Foi então que ouvi o som do 2º taxi, que antes vinha na faixa de bus, mas que tomou a iniciativa de recorrer a duas infracções consecutivas para me vir "dar um beijinho" de corpo inteiro, cortando uma contínua e ultrapassando em cima da passadeira. Trava de repente e ouço os pneus a chiar. É aí que vejo e salto, deitando-me sobre o capot. Pena não terem filmado, porque tinha sido Suricat Matrix. (Wake Up SuriNeo). Sou colhido pelo parabrisas do carro, que prontamente se estilhaça e projectado uns 3-5m, rebolando mais uns tantos.
Claro que, infeliz com a situação, me levantei com uma sensação de necessidade de acertar contas com o malfadado condutor. Mas tal necessidade passou com a intervenção dos passageiros de ambos os taxis que rapidamente se dirigiram a mim a tentar perceber se eu estava bem e me acompanharam ao passeio, me convenceram a sentar e ali esperar por uma ambulância.
Fora o susto, não tinha dores, mas deixei-me ficar quieto. O sangue nas calças era dos arranhões que me foram infligidos durante o contacto incial com o chão.
Duas simpáticas senhoras voluntariaram os seus contactos, e o taxista estava com mais medo que eu. Enquanto uma das senhoras telefonou para o INEM para vir uma ambulância, eu telefonei à minha Mãe. Com toda a calma. Mesmo:
- "Mãe? Olá... olha, fui atropelado em frente à faculdade de psicologia antiga, mas estou bem, já chamaram uma ambulância."
- "AI MEU DEUS QUE O JOÃO FOI ATROPELADO, O QUE ACONTECEU, AI MEU DEUS, ONDE ESTÁS, COMO ESTÁS?"
- "Em frente à faculdade de psicologia antiga, não te preocupes que está tudo bem."
...
O telefonema foi curto. Chegou entretanto o INEM com duas simpáticas paramédicas e em simultâneo uma viatura das forças policiais que por acaso estava a fazer ronda pela zona. Foram levantados dados, enquanto eu fui imobilizado e me foram recolhidos os dados pessoais:

- "João, doi-te alguma coisa?"
- "Sim, a carteira..."

(Vim mais tarde a descobrir que isto era mais literal do que pensava, porque para além das calças rasgadas, o meu pólo preferido rasgado, a mochila raspada, o PDA danificado e que agora passa a vida desalinhado, também o meu porta cartões em alumínio tinha visto melhores dias.)

Enquanto estava a ser colocado na ambulância, telefona a minha Mãe:
- "João, diz para te levarem para o S. João!!"
- "Ele vai para o Santo António!" (dizia uma das paramédicas)
- "Não! Para o S. João!"
- "Tem que ir para o Santo António, é o procedimento, é o mais próximo da zona!"
- "Não, para o S. João, João, diz-lhes para te levarem para o S. João!"
- "Mãe, até logo!"

e desliguei.

Logo de seguida telefona o Figo (aka Figueiredo, aka Figuinho, aka Chico Figuinho), com quem tinha ficado de me encontrar também.
- "Então grande Chefe, olha o Ricardo não vai poder ir..."
- "Erm... Figo, olha, eu hoje não vou poder ir ter contigo, porque acabei de ser atropelado..."
- "Grande desculpa, Jonny..."
- "Não, estou a falar a sério, estou agora a ser posto na ambulância..."
- "Ah... estás bem?"
- "Estou, agora é só por precaução."
- "Olha, o sensei não pode ir que... " (qualquer coisa que eu não me lembro...)
blá blá
blá blá
blá blá
blá blá
blá blá
- "Pronto, depois falamos que agora não dá jeito..."
- "Tá... chau, as melhoras! Diverte-te com as enfermeiras..."
Ele não percebeu que eu tinha o telemóvel em alta-voz.

Já na ambulância, fica em vista um daqueles gatilhos de espetar o dedo para tirar sangue para testes...:

- "Não, isso não! Atropelem-me de novo, mas picadelas não..." (era piada, duh!)

A paramédica riu-se... meia dúzia de piadas mais tarde, estava a fazer a transmissão de dados para o centro de emergência:

- "sexo masculino, 25 anos, o sujeito encontra-se consciente e cooperante."

Fogo, depois daquele meu show, podia ao menos ter dito "o sujeito encontra-se consciente e comediante..."

Já no hospital aparece lá a minha querida Mãe, em pânico, a tentar entrar onde e quando não pode, e a fazer com que eu e as enfermeiras percamos a paciência.

Bem, lá apareceu também a minha Madrinha que, fazendo uso do seu estatuto de enfermeira do HSJ, teve livre trânsito para me acompanhar. A partir daí, não faziam outra coisa senão dizer "Então, João, ouvi dizer que tu é que saltas"... foi a médica que me assistiu, as enfermeiras que a acompanhavam, a radiologista, os cirurgiões, os ortopedistas... a história correu, o meu salto ficou famoso, mas também porque me salvou a vida... não tinha eu tido o sangue frio para saltar, e era neste momento Paté du Suricat. Na radiologia também ocorreu um outro episódio, mas esse é demasiado pessoal para contar. Fica para uns reduzidos selectos.

E assim fiquei durante uns dias dorido. Para terminar a comédia, só faltou mesmo que o agente da brigada de trânsito que me atendeu pensasse que tinha sido eu o "atropelante" e não o atropelado... foi giro ele a perguntar 3 vezes qual era a matrícula até ter percebido que lhe estava a dizer que a vítima... era eu.